Uma assinatura criptográfica demonstra que alguém controlava uma chave em determinado momento. Ela não identifica automaticamente a pessoa, não demonstra que esse controle era exclusivo e não explica de onde vieram os ativos. Do outro lado, um relatório de blockchain mostra relações entre endereços e categorias de risco, mas não prova sozinho a prática de crime pelo cliente. Misturar essas camadas leva a dois erros opostos: aceitar uma wallet como legítima porque o cliente assinou uma mensagem ou recusar uma pessoa como ilícita porque um fornecedor atribuiu nota alta de risco ao endereço.
A Travel Rule trata dos dados do originador e do beneficiário que acompanham transferências entre prestadores de serviços de ativos virtuais. Quando a outra ponta é uma wallet autocustodiada, não existe uma instituição recebedora para confirmar cadastro e trocar dados. A Resolução BCB nº 521 exige identificação do proprietário e procedimentos documentados para verificar origem e destino dos ativos. A exigência trata autocustódia como uma relação que precisa ser demonstrada de forma proporcional ao risco, com resposta sobre quem controla o endereço e qual vínculo ele tem com a operação.
O cadastro liga a identidade da pessoa ou empresa à ordem, enquanto um desafio compatível com a rede, como assinatura de mensagem ou pequena transação previamente combinada, demonstra controle técnico. A finalidade econômica explica por que aquele endereço receberá ou enviará o ativo, e a origem depende de histórico, documentos e contexto da contraparte. Como nenhum método cobre todas essas funções, a captura de tela, por exemplo, demonstra acesso visual ao aplicativo e tem força reduzida diante de conta compartilhada ou imagem alterada.
A análise de blockchain também precisa de critério conhecido, pois exposição direta e indireta, distância entre endereços, valor, data, ativo, rede e tipo de serviço relacionado mudam o peso de um alerta. Uma pequena exposição antiga e indireta não recebe automaticamente o mesmo tratamento de envio recente e direto para endereço sancionado. A política precisa definir fontes consultadas, faixas de decisão, documentos adicionais e autoridade para aceitar ou recusar. Sem essa regra, o resultado depende do analista de plantão e a empresa não explica por que casos semelhantes receberam respostas diferentes.
Mudança de wallet depois do Pix merece controle próprio porque rompe parte da vinculação já verificada. O sistema deve preservar o endereço anterior, registrar a solicitação, repetir as verificações necessárias e identificar quem autorizou a alteração. Editar o campo original deixa o dossiê visualmente limpo e destrói justamente a informação que explicaria um desvio ou uma contestação. O mesmo vale para troca de rede, uso de endereço de exchange e indicação feita por terceiro.
Uma política madura de autocustódia reconhece os limites de certeza sobre quem esteve atrás de cada chave, define o nível de evidência exigido para o risco assumido e conserva a razão da decisão. A empresa demonstra identidade, controle, finalidade e origem em registros separados, sem pedir a uma ferramenta que responda aquilo que ela não mede. Essa separação protege o cliente legítimo contra recusas automáticas e protege a mesa contra uma aceitação baseada em prova incompleta.